Histórias da Freguesia
«António Marinheiro (O Édipo de Alfama)»

 

«António Marinheiro (O Édipo de Alfama)», obra daquele que é considerado um dos maiores dramaturgos portugueses do século XX, Bernardo Santareno (1920-1980), foi publicada, pela primeira vez, em 1961 conjuntamente com outras duas - «O Duelo» e «O Pecado de João Agonia». No ano seguinte, o psiquiatra escalabitano lançou nos escaparates livreiros a «Anunciação », encerrando, assim, um ciclo de trabalhos para teatro que, como na anterior obra poética («Morte na Raiz», 1954; «Romances do Mar», 1955; e «Os Olhos da Víbora», 1957) e narrativa («Nos Mares do Fim do Mundo», 1959, que relata as experiências vividas como clínico nas campanhas de pesca do bacalhau a bordo dos navios David Melgueiro, Senhora do Mar e do Gil Eanes), e na posterior narrativa dramática («O Judeu», 1966; «O Inferno », 1967; «A Traição do Padre Martinho » 1969; «Os Marginais e a Revolução», 1979; «Português, Escritor; 45 Anos de Idade», 1974; e «O Punho», publicado postumamente em 1987), aborda sem rodeios o direito à diferença, a liberdade e dignidade do ser humano face a todas as formas de opressão, e a luta contra a discriminação qualquer que seja a sua natureza. Em «António Marinheiro (O Édipo de Alfama)», a história desenrola-se no bairro e encerra os valores e comportamentos próprios da época, num cenário «onde o fado , o vinho e a taberna são elementos caracterizadores de uma mentalidade pitorescamente portuguesa », como explica Maria Eugénia Pereira, investigadora da Universidade de Aveiro, num artigo intitulado «De Tebas a Alfama: Bernardo Santareno e o mito de édipo».

O marujo António e a costureira Amália são o Édipo e a Jocasta do grego Sófocles, mas na obra de Santareno a trama desloca-se do palácio de Tebas para Alfama. Sobre António pesa igualmente um destino alheio à sua vontade, o Fado, que o conduz à morte de seu pai e ao casamento com Amália, que desconhecia ser sua mãe.

Descoberta a involuntária transgressão das normas, o peso da culpa e a pressão para que esta seja punida acentuam-se, mas no fim, ao contrário da obra inspiradora, vence a liberdade sobre o fatalismo.