Os cortes e a crise
Maria de Lurdes Pinheiro
Presidente da Junta de Freguesia de Santo Estêvão

 

A discussão sobre o Orçamento do Estado pôs-nos a ouvir falar da crise financeira e da necessidade de fazer cortes nas despesas. Esta é uma novela velha e arrastada. Mesmo assim, ainda parece haver quem acredita num final feliz, esquecendo-se dos episódios anteriores.

Estes começaram todos com a crise a aparecer do nada. Agora, também.

O Governo, o Presidente da República (que foi tantos anos primeiro-ministro), o líder do maior partido da oposição - ninguém nesta família é capaz de explicar que o défice das contas públicas existe porque Portugal perdeu indústria, perdeu agricultura, perdeu pescas, perdeu empresas muito importantes e até sectores inteiros. Ninguém nesta família admite que isto sucedeu depois de Portugal entrar na CEE e aderir ao euro, com governos que aceitaram as exigências da Comissão Europeia e dos maiores estados que a dominam, ao mesmo tempo que diziam cobras e lagartos de quem combatia essa política e apontava alternativas.

Em todos os episódios, vieram dizer-nos que os sacrifícios têm que ser repartidos por igual. Agora, estão a cortar a eito... mas começaram pelos apoios aos desempregados, aos beneficiários do rendimento social de inserção, aos pensionistas. Exigem que se faça «prova da condição de recursos» e só por via da Internet! Alteraram a maneira de calcular essa «condição» e as pessoas, sem passarem a ter mais rendimentos, acabam por perder os apoios. Querem cortar nos salários e pôr-nos a pagar mais impostos, a pagar mais pela Saúde, pela Educação, pela Justiça!

Mais uma vez, este rigor não é aplicado às grandes fortunas e aos negócios milionários. Os bancos e os grandes grupos económicos continuam a somar cada vez mais lucros - e os seus accionistas continuam a enriquecer.

É justo o protesto que cresce, que teve uma muito forte demonstração pública na greve geral de 24 de Novembro e que vai certamente continuar a fazer-se sentir. Em tempo de cortes e de crise, o melhor que temos a fazer é mesmo cortar... com esta política!